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O país que escolheu não se enxergar

Neste artigo, a autora debate que a eleição revelou a força que a extrema direita construiu no Brasil e reacendeu um debate urgente sobre consciência de classe, democracia e os caminhos da esquerda para dialogar com os trabalhadores.

Desde que as urnas foram fechadas, no domingo, tenho a sensação incômoda de viver em uma realidade paralela. Olho para o resultado e para o novo Congresso e uma pergunta não me sai da cabeça: como chegamos até aqui?

 

Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno na liderança, com 56 milhões de votos, contra 53,8 milhões de Lula. Mais de 56 milhões de brasileiros escolheram um candidato cuja trajetória é marcada por escândalos cabulosos: foi investigado no caso das “rachadinhas” e homenageou Adriano da Nóbrega, apontado como chefe de milícia, cuja mãe e ex-mulher trabalharam em seu gabinete. Nada disso impediu sua vitória. Como? Me pergunto.

 

Seria confortável dizer que essas pessoas não sabem votar. Mas, muitas sabem exatamente em quem votaram. E isso é o mais grave. A extrema direita deixou de ser uma onda circunstancial, como muitos acharam em 2018. Criou raízes sociais, religiosas, econômicas e culturais. Construiu símbolos, inimigos, igrejas, redes digitais e uma poderosa máquina de produção de identidade política.

 

Enquanto a esquerda fala em programas, políticas públicas e direitos sociais e trabalhistas, a extrema direita fala de pertencimento. Diz às pessoas quem são seus inimigos, quem ameaça sua família, sua religião e seus valores. Oferece respostas simples para problemas complexos.

 

Com esse discurso, a disputa deixou de ocorrer apenas no terreno econômico e passou ao campo da subjetividade. Um trabalhador precarizado, endividado e dependente de serviços públicos como o SUS, referência mundial, pode votar em candidatos que defendem medidas capazes de fragilizar seus direitos.

 

A contradição deveria obrigar a esquerda a enfrentar o enfraquecimento da consciência de classe. Quando o trabalhador deixa de se reconhecer como trabalhador e passa a se identificar prioritariamente como evangélico, conservador, empreendedor ou “cidadão de bem”, o conflito entre capital e trabalho é substituído por guerras morais: contra o aborto, o feminismo, pessoas LGBTQIA+, professores, universidades, indígenas e movimentos sociais.

 

Enquanto combate inimigos fabricados, quase ninguém lhe pergunta quem ficará com seu salário, aposentadoria, jornada, as empresas públicas e os recursos naturais do país. Nesse processo, cresce também o poder político de segmentos neopentecostais. O problema não é a fé evangélica, mas a transformação em projeto de poder estatal. A chamada “teologia do domínio” defende a ocupação cristã de áreas estratégicas da sociedade e a submissão do Estado a determinados valores religiosos.

 

Justamente aí a democracia corre perigo. Democracia não é apenas governo da maioria. É proteção das minorias. Nenhuma maioria pode impor a religião sobre o corpo das mulheres, questionar a cidadania de pessoas gays, perseguir religiões de matriz africana ou retirar direitos indígenas.

 

Talvez eu realmente esteja vivendo uma realidade paralela. Ou talvez a realidade tenha mudado mais profundamente do que conseguimos perceber e as urnas apenas revelaram o que vinha sendo construído há anos. E a pergunta agora não é “como eles venceram?”, mas, “em que momento deixamos que parte tão grande da classe trabalhadora passasse a enxergar seus adversários entre os que têm menos direitos, e não entre aqueles que concentram riqueza, poder e privilégios?”

 

* Fabiana Pacheco é jornalista

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